coisas que passam por esta "cabecinha"...

02
Dez 09

 

 Uma rosa de vocabulário encolhido

Rosa, onde o preto devia estar

Uma rosa mais ou menos muda...

... de plástico japonês

de Noel, parece mas não é

Denúncia e do medo de me amar

Língua rosa em boca amarela

desbotada não... fere a vista

  (Ivan Lins in “Rose Music” do álbum “Beauty”)

 A semana passada fui ver o Ryuichi Sakamoto no Bridgewater Hall em Manchester num concerto que faz parte da tournée “Playing the Piano”. Não podia ter faltado ao encontro e ainda bem.

Ryuichi Sakamoto faz parte da minha cultura urbana musical e apresentou–se já nos anos 80 como um fenómeno de multimédia no filme “Merry Christmas Mr. Lawrence” como actor, contracenando com David Bowie e compositor. A banda sonora deste filme ganhou um BAFTA em 1984.

Preparei-me então para este encontro quase que religioso, ouvindo atentamente o último álbum “Playing the Piano” e também “Out of Noise”, “Neo Geo” e “Beauty”. O título da tournée deu-me a impressão que iria assistir a uma performance de cariz clássico, uma edição contemporânea de “Chopin plays Chopin” ou “Debussy plays Debussy”. Ao ouvir o tema de “Merry Christmas Mr. Lawrence” quase que contactei Ryuichi sugerindo-lhe que esta peça seria ideal tocada a quatro mãos. Como a atmosfera do último álbum de Ryuichi faz-me lembrar fortemente as “Lyric Pieces” de Grieg tocadas pelo Emil Gilels que tenho na minha discoteca, estava à espera de alguma simplicidade, um piano e alguns “temperos” audio–visuais para darem um carácter actual ao acontecimento.

Quando cheguei à sala de concertos um anúncio adiava o início de espectáculo para as 19h55 em vez das 19h00. Um pequeno contratempo que deu para passar e passear no “foyer” e observar que a maior parte dos espectadores eram japoneses, penso que quase toda a comunidade do Noroeste estava presente.

Finalmente entrei na sala e fiquei desapontado. Dois pianos de concerto sem tampa, microfones, colunas, numa sala que tem condições acústicas ímpares, pareceu–me um pouco exagerado, mas talvez seja demasiado purista... e o concerto começou... com o tema gravado “Glacier” do álbum “Out of Noise”... um tema bastante “atmosférico” com laivos de David Sylvian, lado 4 do duplo álbum “Gone to Earth” ou não tivessem eles tocado no mesmo grupo “Japan”... as luzes da sala iam diminuindo de intensidade, lentamente, e veio–me à memória uma entrada equivalente na velha Catedral do Rock em Cascais de Peter Gabriel numa obscuridade total com a percussão de “Intruder”. As luzes do interior dos pianos reduziram–se na totalidade e Ryuichi entrou em palco enquanto um écran projectava legendas em Inuit seguidas de inglês, de frases que estão em “Glacier”, tiradas de entrevistas com gente local na Gronelândia descrevendo a regressão dramática dos glaciares nos últimos anos e alertando–nos para o fenómeno do aquecimento global. Mas eu queria era ver o Ryuichi a tocar piano, como prometido e assim foi... começou o tema seguinte “To Stanford” em piano e “Composition”... e notou–se na audiência e em mim um certo (des)concerto pois, e perdoem–me viver em Inglaterra há tanto tempo, o público aqui gosta mesmo de música ao vivo. Era óbvio que neste último tema havia mais do que aquilo que Ryuichi estava a tocar, parecia um mau “play–back”, tipo Britney Spears na Austrália. Quando este tema terminou o aplauso foi curto e frio e talvez apercebendo-se disto Ryuichi levantou a mão esquerda e deu uma entrada de Maestro... um acorde de piano soou, não tocado por ele mas sim pelo outro piano solitário como podem ver neste tema “Thousand Knives”.

Tudo estava esclarecido e quando terminou este tema o aplauso foi retumbante... e quando atacou de seguida “Amore” para piano solo e mais temas do último álbum a audiência (ou eu) estava subjugada, encantada, rendida(o) a um dos melhores espéctaculos de piano e não só a que assisti na minha vida.

Ryuichi deixou o palco por um breve instante e quando voltou tocou temas de uma beleza inigualável como “Hibari” e “Energy Flow” os quais me deixaram extremamente comovido.

Depois de duas horas o segundo encore teve mais um tema sómente e simplesmente  “Merry Christmas Mr. Lawrence”... “Fim”.

Que mais dizer... o bom gosto, o equilíbrio ímpar entre dois pianos tocados realmente ao vivo, a simplicidade e estética única da projecção visual no palco fizeram deste espéctaculo um espectáculo. Só Ryuichi poderia trazer todo este som e apresentá–lo desta maneira tão sentida e cosmopolita, honesta e ao mesmo tempo elaborada.

Não sei se “Sakamoto plays Sakamoto” resistirá à erosão do tempo... pelo menos enquanto eu estiver neste planeta como testemunha não me esquecerei que numa noite de chuva, em Manchester, a milhares de quilómetros da sua casa, um pequeno/grande Senhor japonês demonstrou que o ser Humano, e só ele, pode atingir momentos únicos e trazê–los e partilhá–los com outros Humanos brevemente e, ao mesmo tempo... para sempre.

 

Muito obrigado Senhor Sakamoto, ou domo arigato (foi assim que o Japão começou a agradecer à maneira portuguesa no século XVI).


15
Mai 09

 

Estou farto disto... de olhar para o facebook, escrever blogs, comer hamburgers (não, não como, é só retórica), farto de cultura anglo–saxónica e da constante salivação, ou babugem senil de muitos bons portugueses, por coisas que vêm em inglês (legendas necessárias para alguns, muitas más legendas). Ele há lá coisa melhor do que a excelente bebida (Coca–Cola) e a excelente comida Big Mac mais a extraordinária escrita (Dan Brown), a espectacular actuação (Tom Cruise, Sarah Jessica Parker), o grande cinema (Slumdog Millionaire embora este até seja aceitável) e outros mimos ainda melhores incluindo não exaustivamente, a colónia de férias de Guantanamo (oh Guantanamera que já eras...), Iraque, Afeganistão, bombas de urânio, CIA, MI5 e 6, despesas parlamentares de Right Honourables, sem rectitude nem honra, calão corporativo e financeiro, spreads, meetings, SMSs, ipod, itunes e muitos mais... e nós papamos tudo. Pior, chega–se ao ridículo de ver no facebook comentários entre bons portugueses feitos na língua inglesa provávelmente para “inglês ver” e mostrar cretina universalidade.

Eu que gosto tanto de música fico quase em estado de choque ao ver rap português ??? (pronunciam rép por engano ou descambagem auditiva sem saberem que um rép é um caixeiro–viajante), adulações várias pelo Frank Sinatra e os Smiths sem haver a menor referência emocional e cultural ao que estes artistas se referem, infindáveis artigos acerca de “artistas” de segunda ou inferior categoria como Amy Winehouse ou os Beatles, sem a inteligência para distinguir o que é valioso daquilo que é auto promoção ou publicidade enganosa. No fim são foleiros a falar de coisas foleiras que se passam em duas nações muito foleiras, Inglaterra e Estados Unidos.

Quando comecei a ouvir música com atenção no início dos anos 70 era a rádio que imperava. Às 10 ouvia um programa que invariávelmente tocava o 5.15 dos “The Who” e às vezes o “Tubular Bells” e depois a partir das 11 havia um programa de duas horas onde álbuns inteiros passavam em antena com liberdade total sem intenções de vender “merchandising” associado ou “fashion” ou modos de vida. A minha educação, embora absorvida numa banda sonora em língua inglesa, foi feita dando atenção à qualidade da música, ao som, à arte dos álbuns, voz, guitarra, teclados, sem qualquer interesse em saber se o Rick Wakeman era apanhado com drogas ou se o Jon Anderson tinha comprado duas ou três casas na Suíça.

Mais tarde, quando os meus amigos andavam a contar tostões para “paparem” concertos de estádio em Madrid dos Pink Floyd ou Rolling Stones eu andava mais curioso por saber onde o Rão Kyao ou o António Pinho Vargas iriam tocar. Vi–os nos locais mais díspares, desde a praça de touros de Vila Real de Santo António, Técnico ou anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian. Vi também muito rock e jazz Anglo–Saxão em Cascais, Lisboa, Paris, Londres, Zurique e Manchester. Alguns bons mas muita mediocridade. Vi também coisas mais próximas, das terras do Brasil, Cabo Verde, a Amália e a Celeste, Madredeus, Delfins, Xutos, UHF, GNR, o Rui...

O Rão era meu conhecido do Clube Naval de Lisboa. Quando entrei no clube ele era já uma figura mítica e alguns atletas do clube diziam – O Rão deve estar a chegar, vais ver o caparro que ele tem – isto em 1974 e logo a seguir a notícia que ele ia tocar saxofone e não tinha mais tempo para treinar.

Mais tarde, talvez uns 15 anos depois, a minha namorada da altura perguntou–me se eu queria ir jantar com ela e o Rão. Disse logo que sim. Quando o fomos apanhar a Cacilhas, ainda com caparro, ocupou o banco de trás do Renault 5 na totalidade. Passámos grande parte da noite, enquanto comiamos peixe em Sesimbra, posta de corvina com arroz branco para espanto do empregado, a cortar na casaca da cultura anglo–saxónica. No íntimo o Rão e eu sabiamos que tudo se esbate e ganha a mesma referência se fizermos este pequeno esforço mental; a Amélia Casa do Vinho não tem o mesmo requinte de uma Teresa Salgueiro, o Departamento da Alegria, os Silvas, o Tomás Cruzeiro, a Sara Caneta de Tinta Permanente, o Daniel Castanho são aquilo que são originalmente... foleiros e inconsequentes.

Há uma vergonha enorme de se ser Português e de lutar por coisas portuguesas. É muito fácil para os responsáveis “culturais” de publicar “enlatados” acerca de figuras que não têm a menor relevância para a nossa cultura e que não merecem o assassinato das árvores necessárias para imprimir semelhantes vulgaridades. Colar e copiar com traduções que parecem tiradas do “google”.

Continuamos a papar cultura através de pessoas que não saem detrás das suas secretárias, opinadas e ignorantes, por exemplo a pensar e a transmitir que o nome de Portugal vem de Portus e Cales, condado Portucalense em tempos quase visigóticos; bastava uma pequena viagem a uma ilha grega e comprar uma... laranja, εηά πορτοκαλί, ena portocali, para ver que o nome da nossa terra é simplesmente o País das Laranjas, como os gregos designavam o Algarve há 2500 anos. E os gregos têm uma certa maneira de descrever coisas belas.

Pasmo em ver pessoas a fazer doutoramentos para descobrir que um prato de caril muito popular em Inglaterra, o vindaloo que foi também canção da selecção inglesa, não é mais que a importação do nosso vinha d’alhos como eu disse a esse estudante; uma ida para jantar no “Cantinho da Paz” ali na rua da Paz tinha poupado uns tostões ao Estado.

Pasmo em ver gente a fazer cerimónias de chá à inglesa quando fomos nós que levámos tal tradição para esse país. Isto também inclui a descrição de “Danish Pastry”.

Pasmo em ver gente a tentar falar japonês e dizer “domo origato” quando estas palavras não existiam no Japão antes da chegada das naus portuguesas e os nossos sempre educados agradecimentos com um grande “muito obrigado”. O mesmo vai para a “tempura” que não é mais do que os nossos “peixinhos da horta” aliados à palavra tempêro.

E não há orgulho, não há disseminação daquilo que somos e podemos. Qual o país onde um transeunte pode chegar à linha de vista de 50 metros do Coronel Kadaffi sem ser imediatamente assassinado por forças de segurança?

A imprensa e meios “culturais” passam o tempo a digerir indigestões de coisas que já foram digeridas e processadas pela outra extremidade do aparelho digestivo em Londres e Nova Iorque. É um gesto nobre fazer tal reciclagem, só pela reciclagem em si mas tão inútil.

E para finalizar que isto já vai longo lembrem–se... há muito mais beleza em “Roendo uma laranja na falésia” do que em “How soon is now”, que a mais bela canção de amor é “O Prometido é devido”, que ouvir “Do Teatro” do António Pinho Vargas faz vir lágrimas aos olhos, da mais bela voz da Teresa Salgueiro, do melhor piano da Maria João Pires, do melhor poema “Um pouco mais de azul” de Mário de Sá–Carneiro, da melhor prosa “O Memorial do Convento”, os “Maias”, qualquer Aquilino, Lobo Antunes... até o melhor futebol do Cristiano Ronaldo.

Leiam o blogue do José Saramago em vez do Woody Allen. E parem de falar inglês!

PS: Um pequeno excerto do Eça que poderia ter sido escrito ontem tirado de "Os Maias", capítulo XVIII, página 571 e seguintes:

Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flores na lapela, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. Era toda uma geração nova e miúda que Carlos não conhecia.

Por vezes Ega murmurava um olá! acenava com a bengala. E eles iam, repassavam, com um arzinho tímido e contrafeito, como mal acostumados àquele vasto espaço, a tanta luz, ao seu próprio chique. Carlos pasmava. Que faziam ali, às horas de trabalho, aqueles moços tristes, de calça esguia? Não havia mulheres. Apenas num banco adiante uma criatura adoentada, de lenço e xale, tomava o Sol; e duas matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hóspedes, arejavam um cãozinho felpudo. O que atraía pois ali aquela mocidade pálida? E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos...

— Isto é fantástico, Ega!

Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas, sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro — modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha... Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado — exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta — imediatamente o janota estica-o e aguça-o, até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine, em estilo preciso e cinzelado — imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase, até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez, o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução — imediatamente põe, no programa dos exames de primeiras letras, a metafísica, a astronomia, a filologia, a egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas, e outros infinitos terrores. E tudo por aí adiante assim, em todas as classes e profissões, desde o orador até ao fotógrafo, desde o jurisconsulto até ao sportman...

 

 

 


28
Abr 09

Lembram-se da Casa das Limonadas? Da original? Fiz um “google” recentemente com “Casa das Limonadas” e o resultado foi um restaurante na Rua dos Sapateiros o qual não serve limonadas como actividade principal mas está mais dedicado a almoços “trabalhadores”. O episódio que vou narrar passou-se na Casa das Limonadas na Rua Nova do Almada em frente à Casa Senna, logo abaixo da Socidel e do Tribunal da Boa–Hora. Este estabelecimento estava encafuado quase debaixo da plataforma de estacionamento do Tribunal, estreito, com balcão em madeira escura e uma ou duas mesas com tampo de mármore. Curiosa esta relação geo–semântica entre Limonadas e "clientes" do Limoeiro.

Podem avaliar a antiguidade da história pelos nomes descritos... Casa Senna, Socidel, os únicos retalhistas que vendiam equipamento desportivo nos anos 70 e que eu frequentava regularmente para ver as últimas modas e babar-me com a visão de ténis Adidas (a única marca desportiva existente, Sanjo não conta, era tudo tão simples).

Bom... estou eu a ir ou a vir da Baixa ou Rossio ou até da Socidel depois de comprar uns calções pretos em puro nylon que me ajudariam a remar melhor,  principalmente devido à intensa acumulacão de carga eléctrica por fricção, quando a visão de uma limonada me parece extremamente refrescante. Entro e peço uma limonada, pois claro (nada de Coca Colas da treta ou 7UPs) e espero ao balcão que o empregado vá zelosamente pelo processo de espremer os limões e juntar água, açúcar e gelo. E pronto, lá fico eu a beberricar e a refrescar-me.

Outro cliente chega...

– Uma limonada se faz favor.

– Sim senhor é p’ra já! – responde o empregado não sei se tão literalmente.

O cliente faz como eu... fica a olhar para o ritual de espremer limões. Quando o empregado põe o sumo no copo, junta o açúcar e o gelo, o cliente exclama, quase involutáriamente em desespero:

– Não! Não!!! o que é que está a fazer? Não é assim que se faz uma limonada!

– O quê? O que é que está a dizer? – responde o empregado embasbacado.

– Não, não junte o açúcar e o gelo ao mesmo tempo senão o açúcar não derrete.

– ??????

– Tem de pôr o açúcar e o limão primeiro, misturar com água e só no fim juntar o gelo!

– É assim que eu faço a limonada, quer ou não quer? – responde o empregado irritado, quase atirando a limonada para o balcão.

– !!! – o cliente faz uma interjeição de desconsolo, dá meia–volta e sai para a rua.

– Barda merda! – diz o empregado “em brasa” – aparece–me cada um! Eu que faço limonadas aqui há 30 anos sem qualquer problema a levar lições de tal filho da puta?

Ninguém responde. Silêncio meditativo em todos os presentes... a pensar talvez na dialéctica entre profissionalismo e inovação, entre intelecto e repetição quotidiana ou em como, neste caso, o cliente tem sempre razão!

 


31
Mar 09

Há uns tempos atrás estava a almoçar com o meu conterrâneo Oeirense Loucuras (aka Fernando Piloto) em Manchester. Estamos os dois desterrados aqui nestas terras frias, tipo Eça de Queirós, com a subtil diferença de não haver uma série de romances a serem escritos nos tempos mais próximos.

O Louco e eu, embora Oeirenses há décadas, temos diferentes origens geográficas na Vila; ele de Nova Oeiras (o que implica cigarros constantes, tipo locomotiva, muitas bicas, passe social na Tendinha e fazer parte da mobília no Beer Hunter), eu do Bairro das Caixas, mais São Julião (muita praia, surf, desporto, poucos cigarros, muitas inalações marroquinas, bronze perpétuo, Tendinha também).

Estamos então a almoçar e começamos a lembrar e tentar encontrar indivíduos comuns, pois sabemos que estamos divididos cultural e geográficamente pela linha do comboio. Relembramos Nova Oeirenses, tais como as Bruxas, os Paivas, Lechners, o Franky, a Bébé e o Bébé (este não precisa de ser relembrado; temos profundo conhecimento através de infinitas imperiais no Beer Hunter com o Luís Miguel, castiço quase castiçal pub landlord), Deputado Becas, Zé Velho e muitos, muitos mais que não me vêm à memória que me perdoem os omitidos. Relembramos malta “das Caixas” tipo Canadá, Cassius Clay, Pita, Orlando, Portas, Inocentes... nomes também do Liceu de Oeiras, como o Zito, Mila, Daniel, Albertis, KGBento, Eugénio... infindável.

No meio da conversa vêm nomes de gente que já não está connosco, especialmente nas Caixas onde a mortalidade juvenil daria origem a um vasto estudo antropológico... seguido de gente que está a lutar pela vida no sentido mais próximo da morte. Primeiro o Gaducho, irmão mais novo da Bebé e do JeanP (nunca conheci muito bem) e a seguir a... Gin (gulp). Mais tarde, quando falo com o Louco outra vez antes do Natal, diz-me que o Gaducho morreu.

Há umas semanas atrás, o Louco relembra-me a morte do Gaducho. E eu pergunto “E a Gin como está?”... e a resposta “A Gin? A Gin também já morreu, morreu antes do Gaducho em Setembro, não te disse?!” Fico gelado e vêm-me lágrimas aos olhos. Não consigo acreditar que a Gin não esteja mais connosco. Faz parte da nossa cultura juvenil e deveria ser imortal. Faço um pesquisa no Google e sei que “Gin” não vai dar o resultado pretendido. Procuro o nome, Margarida Felgar, e só há meia dúzia de ligações, Elite Models e Herbalife.

Vêm-me à memória momentos do passado quando durante um ano lhe dei explicações de Matemática para o exame do 12º mais ao namorado da altura, o meu amigo de infância Nuno Portas. Como pontualmente, às 9 da manhã, me apareciam os dois para levarem mais uma ensaboadela de funções, primitivas e derivadas, muitas vezes com uma ressaca infinita, minha e deles, mas sempre uma hora bem passada e divertida, quase que parecia mal pagarem pela lição. Ambos extremamente diligentes e inteligentes.

Vem-me à memória a notícia da morte do irmão num desastre de automóvel a ir/vir do 2001 no Autódromo, numa Sexta à noite, na véspera do Concurso de Miss Portugal que a Gin abandonou, mas que teria ganho pois na altura não havia ninguém mais bonito no nosso País.

Vêm-me à memória conversas ocasionais em discotecas, Fateixa, Narciso, sempre com um sorriso, com um olhar perceptivo que algumas pessoas podiam confundir com arrogância ou desdém mas que tinha a ver com inteligência aliada ao termo moderno “streetwise”.

Acabo com este pequeno episódio. Uma certa manhã em 198?, o Orlando, Paulo Bello (aka Super Homem) e moi-même vamos na Marginal a caminho do Meco para um longo dia de praia e mariscos vários. Em Paço d'Arcos, um carro passa por nós (seria um Autobianchi Y10?) e alguém na nossa viatura exclama “Eh, vai uma gaja boa naquele carro, Super! pé no pedal e segue-a!” sabe Deus qual seria o objectivo deste exercício. O Super põe o pé no dito, o Bianchi vai bem acima dos 70Km/h autorisados por lei e lá  vamos em perseguição. “Olha, a gaja topou-nos está a olhar pelo retrovisor!” comentamos nós com ar satisfeito, ainda hoje não consigo descortinar o objectivo dos comentários, perseguição, troca de olhares espelhados. Os semáforos da Cruz Quebrada para o Estádio estão vermelhos. O Autobianchi pára na faixa da esquerda e nós quase a seguir. A porta do condutor abre-se e a “gaja boa” sai da viatura, põe as mãos nas ancas e exclama “O que é que vocês querem seus ...?” já a rir-se perdidamente! E nós “Fénix, é a Gin! que vergonha!” A Gin continua a “mandar vir”, a rir e a sorrir, a actuar, já nos tinha topado há milhas, carros a apitar, semáforos mudam para verde e vermelho outra vez. Depois tira as mãos das ancas, vem ter connosco, também saímos do carro, pow-wow na Marginal, “Vocês não têm juízo nenhum! E se fosse outra gaja? O que é que vai pela vossa cabeça?” diz ela, “Desculpa Gin! Estás bem?” respondemos com ar de contrição. Beijinhos e despedidas, continuamos na nossa vida, a Gin na dela.

Não sei se a vi depois disto. Esta é a minha última memória.

 

publicado por Paulo Ferreira às 11:20
estou...:

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